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Precisamos de uma Revolução Humana |
Leonildo Correa - Faculdade de Direito -- USP
Aportamos ao século XXI, contudo, ainda vivemos ligados a comportamentos e hábitos do milênio passado. Evoluímos tecnologicamente em muitas áreas e fomos longe nas viagens planetárias, mas tudo o que encontramos foi o vazio. Há vazio no átomo, há vazio entre as estrelas, há vazio dentro do homem, principalmente ausência de humanidade.
O homem aprendeu muitas coisas, mas não aprendeu a ser humano. O homem promoveu muitas revoluções e inovações, mudou sistemas e formas de governar, construiu e destruiu impérios. Entretanto, ainda não conseguiu compreender e respeitar o próprio homem.
Criamos riquezas, criamos poder, criamos soluções, curas e salvações, mas não sabemos dividi-las. Assim, enquanto algumas sociedades se aportam ao século XXI, outras continuam na idade dos metais. Enquanto alguns falam em Direitos Humanos, outros ainda lutam por direitos de animais, por exemplo de ter uma refeição por dia.
Mas quem revoluciona, revoluciona alguma coisa. Vamos revolucionar o quê ? Poderíamos revolucionar a economia, distribuindo todas as riquezas em partes iguais. Mas já tentaram isto e não deu certo. Poderíamos revolucionar a política da classe dominante colocando dominados no governo, mas estaríamos criando uma nova classe dominante, ou seja, apenas mudando o referencial da opressão. Além disso, as revoluções que afetam instituições são passageiras, pois as pessoas são as mesmas, os comportamentos são os mesmos e as coisas antigas sempre podem ser reconstruídas.
Logo, precisamos de uma revolução que não mude apenas as instituições e as formas, mas sim que mude as pessoas, seus comportamentos e suas posições diante do mundo. Precisamos de uma revolução que preencha a ausência de humanidade e torne o homem um ser humano. Uma revolução que faça o homem entender o homem, sua própria espécie, suas necessidades, suas falhas e sua essência. Precisamos de uma revolução que transforme o homem em homem e não em coisa.
As instituições podem ser mudadas a qualquer tempo. Constituições são apenas papéis. Democracia é apenas um meio de ação. Nazismo, Comunismo, Fascismo, Totalitarismo são apenas, e tão somente, sistemas e regimes sem vida e sem vontade. São os homens que dão vidas às coisas. Homens maus transformam coisas sem vida em instrumentos do mal. Homens bons transformam coisas sem vida em avanços para a humanidade.
Precisamos fazer uma revolução que reduza drasticamente a quantidade de homens maus e aumente exponencialmente a quantidade de homens bons no planeta. De nada adianta reformar e revolucionar as instituições se não reformamos e não revolucionamos os homens.
Precisamos construir uma revolução que abandone os dogmas e as fórmulas prontas. Cada pensador foi sábio em seu tempo, mas tem que ser entendido no contexto original. Pensadores do passado não explicam o presente e não servem para o futuro. Se acertam em um ponto, erram em dez. O mundo atual é cheio de variáveis e de elementos que fogem às teorias e às formulações dos pensadores antigos.
Assim, não precisamos de uma revolução que estabeleça a igualdade entre os homens, mas sim de uma revolução que reduza ao mínimos as desigualdades, pois o homem é um ser quem tem a sua individualidade e esta características tem que ser preservada. Cada um deve ser do jeito que quer ser.
Precisamos de uma revolução que dê plena liberdade ao homem. Não liberdade para agir contra a coletividade e contra seus semelhantes, mas liberdade para ser, seja lá o que for, e agir como quiser, tendo consciência e respondendo por seus atos e ações.
Enfim, necessitamos de uma NOVA REVOLUÇÃO. Uma REVOLUÇÃO QUE MUDE O HOMEM EM SI, SUA NATUREZA DESTRUIDORA E EGOÍSTA E SEU COMPORTAMENTO NOCIVO contra a própria espécie. Precisamos de UMA REVOLUÇÃO HUMANA.
Certamente, não precisamos de uma REVOLUÇÃO HUMANA que uniformize os homens, padronize comportamentos, hábitos e idéias ou construa indivíduos semelhantes e sem iniciativa. Por isso a REVOLUÇÃO HUMANA deve ter como fundamento e eixo diretor o CONHECIMENTO, a INFORMAÇÃO, a LIBERDADE e a DIVERSIDADE.
O CONHECIMENTO é a chave que permite acessar e modificar o código-fonte homem. A EDUCAÇÃO é o instrumento que carrega e transmite o conhecimento. A INFORMAÇÃO é o elemento bruto que, uma vez refinado, testado e comprovado, possibilita a construção do conhecimento e a ação humana eficaz. Eu diria que o conhecimento é um conjunto de informações que foram comprovadas e aceitas como verdades relativas. Assim, pode-se dizer que o conhecimento é formado por verdades relativas que perduram no tempo.
A primeira conseqüência que deriva desta idéia é a mutabilidade do conhecimento, assim, o que foi conhecimento no século XIX, pode não sê-lo no século XXI. E o que é conhecimento hoje, pode não sê-lo no século XXX. Isto porque cada geração tem o poder de construir e de destruir as verdades relativas, com base em novas informações. Assim, cada geração tem o poder de formar e reformar o CONHECIMENTO elaborado pela espécie HUMANA.
Neste contexto, o CONHECIMENTO e a INFORMAÇÃO devem ser a base da REVOLUÇÃO HUMANA. O conhecimento porque possibilita ao homem ter uma noção exata de si e das coisas ao seu redor, permitindo fazer um juízo de valor sobre seus atos e suas ações.
Homens que têm conhecimento e que têm informação não entram em canoa furada e nem lutam em guerra que não lhes pertence, assim como não auxiliam na construção de sistema nocivos à espécie humana. Se alguns, apesar de possuírem conhecimento e informação, fazem isto, a maioria não faz. Por isso os regimes totalitários controlam e manipulam o conhecimento e a informação, disseminando mentiras que levam a coletividade a defendê-los e sustentá-los.
A informação possibilita ao homem confrontar o conhecimento (informação comprovada e verdades relativas) com a realidade do momento. E do confronto entre a informação (de hoje e agora) e o conhecimento chega-se a uma síntese e ao melhor caminho a seguir.
A maioria das revoluções falharam porque buscavam e defendiam interesses de classes ou de grupos específicos e restritos. Revoluções que, por um período foram vencedoras, mudaram coisas, sistemas e governos. Contudo, não mudaram os homens. Poucas, talvez nenhuma, teve a coletividade, a maioria dos cidadãos, como objetivo precípuo. E a maioria utilizou a coletividade, o povo, como instrumento, ou então, como massa de manobra e como combatentes de guerras.
Em outras palavras, as coletividades sempre serviram a revoluções e a revolucionários, sempre lutaram e morreram em guerras que não lhes pertenciam e defenderam interesses que não eram seus.
Igualdade, liberdade e fraternidade para quem ? Para o povo ? Revolução comunista ou socialista, mas a maioria dos cidadãos sabia o que era comunismo e socialismo, ou queriam o comunismo e o socialismo, ? Igualdade universal, mas nós queremos ser iguais ? Quais a implicações da igualdade universal para a espécie humana ?
Enfim, o CONHECIMENTO e a INFORMAÇÃO tornam o homem senhor de seu destino e de suas ações, dando-lhe elementos para pensar o futuro e escolher o melhor caminho a seguir.