|
Por que os bandidos não atacam os políticos |
Leonildo Correa -- Faculdade de Direito -- USP
Por que os bandidos não atacam os políticos que roubam o povo ?
Senhores bandidos, ao invés de atacarem pessoas de bem, que trabalham de sol a sol para produzir e sustentar suas famílias e ter um pouco de sossego; ao invés de atacarem empresários que geram empregos, rendas e riquezas para o Brasil, ao invés de atacarem famílias trabalhadoras, mudem o foco e o grupo. Se não posso convencê-los a não praticarem crimes, ao menos tentarei desviar suas atenções para os inimigos e parasitas da sociedade e do povo. Observem os políticos, senhores bandidos. Percebam o quanto exploram e sangram a coletividade e os recursos coletivos. Pensem na quantidade de horas que eles trabalham e se é justo o que recebem todo mês, inclusive, acabaram de aumentar os próprios salários, ou seja, acabam de dobrar os próprios salários.
Aumentaram seus próprios salários em mais de 90%, enquanto o povo apodrece na miséria ganhando um salário mínimo. Eles, que trabalham pouco, irão ganhar cerca de R$ 24,000,00, enquanto o povo que trabalha muito e de sol a sol recebe apenas R$ 350,00. Eles, os políticos, aumentaram seus próprios salários em mais de R$ 12,000,00 e se recusam a aumentar o salário mínimo em mais de R$ 25,00.
Percebam, senhores bandidos, que a área política é um bom ramo para se explorar. Ainda mais agora que cada político vai levar para casa, todo mês, mais de R$ 150.000,00. Certamente, não estou contando o que eles roubam por fora, só o que roubam por dentro, na cara dura e na frente de todos.
Portanto, senhores bandidos, por que roubar, seqüestrar, extorquir, etc um empresário trabalhador que produz emprego e renda, se o senhor pode fazê-lo de quem parasita o país e rouba do povo. Use a sua atividade para uma finalidade social, para ajudar o povo a combater a corrupção e as falcatruas que sangram os recursos coletivos. Ataquem quem rouba o povo. Deixem em paz os trabalhadores que suam a camisa para produzir e ganhar. Roubem de quem rouba da coletividade. Ataquem quem ataca a coletividade.
Além disso, ladrão que rouba ladrão não merece prisão, sem contar que o povo vai se sentir vingado, pois saberá que os recursos furtados da coletividade não trouxe felicidade para os políticos parasitas, mas sim desgraça e violência.
-------------------------------------------------------------
O aumento abusivo de salários na Câmara e no Senado indicam que as instituições estão sendo assimiladas e destruídas pelos grupos dominantes que parasitam a coletividade. As instituições não trabalham para proteger o patrimônio e os interesses coletivos, mas sim para enriquecer pequenos grupos, dando benefícios para os alinhados, para gente da classe a que pertencem. Atuam na surdina e na calada da noite para que ninguém perceba o golpe contra a coletividade.
Até aqui eu só falei o óbvio. Aquilo que todo mundo percebe, mas que ninguém atua de forma drástica e forte para conter. O que vocês não perceberam foi a conveniência desse aumento dado pelo CNJ para os Juízes, pisando numa proibição votada no Legislativo. A idéia é simples: os Juízes, por intermédio do CNJ, pisam no legislativo e ninguém no Congresso fala nada. Assim, quando a Câmara aumentar os salários dos Deputados, o Judiciário vai assinar embaixo, confirmando a legalidade da falcatrua, ou seja, uma "mão lava outra". Esse é o negócio que deve ter sido articulado no subterrâneo. Dois golpes certeiros da burocracia estatal contra a coletividade, contra a coisa pública.
Qual a solução ? Chamar a polícia para os Juízes, desembargadores e Ministros do STF? Esperar que o MP ataque e derrube a decisão do CNJ ? Mas e a máfia do MP, por que ela não se manifestou ainda ? Pelo que eu saiba o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) também está pleiteando aumento salarial ? Será que não conseguiram estabelecer a PAX MAFIOSA neste caso ?
Enfim, para mudar o Brasil nós temos que derrubar os grupos dominantes, tirando o poder das mãos deles e encarcerando os corruptos e ladrões da coisa pública. Por isso, eu concordo plenamente com o Senador Cristovam Buarque de que a corrupção e os crimes patrimoniais cometidos contra a coletividade devem ser considerados crimes hediondos. Além disso, temos que perder o medo de autoridade pública e começar a atacá-los frontalmente. Temos que começar a bater de mão fechada e esfregar na car deles os prejuízos que ocasionam à coletividade com seus pactos secretos e suas decisões estúpidas, assim como o parasitismo que promovem contra o patrimônio coletivo.
Alguns dizem que isso é democracia, ou seja, que a corrupção é a principal características dos governos democráticos. Essa afirmação é uma grande mentira e deve ter sido dita por um corrupto democrata. A Democracia é um método de governo e neste método só há espaço para corrupção de houver conivência e inércia da coletividade e dos demais grupos que atuam na arena democrática.
O que falta no Brasil é respeito às instituições e à coisa pública. Não respeito do povo, mas sim das autoridades públicas que "cospem no prato em que comem". Isso deriva da impunidade que caminha ao lado dos poderosos, protegendo-os, assim como de seu poder de dizer a justiça e aplicar a lei. A questão que povoa as mentes revoltadas é: como derrubar essa gente ? Como tirar deles o poder que massacra, oprime e escraviza a coletividade ? Certamente, o povo dá o poder e o povo pode tirar o poder. Agora o que precisamos saber é se isto será feito pacificamente ou violentamente.
Mas, se você não acredita em nada do que eu disse, clique aqui e leia as notícias sobre aumento de salários do judiciário e da câmara. Perceba o alinhamento de interesses e de razões, as conveniências das discussões, tudo na mesma época, etc. Enfim, você vai ver o fio da meada que transpassa toda a história.
Para finalizar vou transcrever dois parágrafos de um artigo que foi estudado, neste semestre, na disciplina de Filosofia Política aqui da USP. É um texto de Maurizio Viroli denominado "The New Republicanism". Um texto que faz parte do livro Republicanism (Hill and Wang: New York, 2002):
"Os teóricos republicanos clássicos também enfatizavam que o constrangimento que leis justas impõem à escolha de um indivíduo não é uma restrição de liberdade, mas um elemento essencial de sua liberdade política. Eles também acreditavam que restrições impostas pelas leis às ações de governantes e de cidadãos comuns são a única proteção válida contra a coerção por parte de qualquer pessoa ou grupo de pessoas.
Maquiavel expressa firmemente essa crença em seus Discursos (1,29), quando escreve que se há um cidadão a quem os magistrados temem e que tem o poder de quebrar a lei, então a cidade inteira não pode ser considerada livre. Ela só pode ser considerada livre quando suas leis e normas constitucionais restringem a arrogância dos nobres e a licenciosidade do povo.
Rousseau coloca de maneira muito clara a diferença entre obediência e servidão quando escreve: “um povo livre obedece, mas não serve; tem líderes, mas não senhores; obedece às leis, mas somente às leis, e é por causa da força das leis que não é forçado a obedecer os homens”. Ele identifica liberdade com obediência às leis que impõem o mesmo constrangimento a todos; ao contrário, equipara não-liberdade com privilégio — quando alguns indivíduos têm o poder de isentar a si mesmos do constrangimento imposto a outros: “o cidadão deseja a lei e que as leis sejam observadas.
Todo indivíduo sabe bem que se exceções à lei forem permitidas elas não trabalharam a seu favor. Assim cada um tem razão em temer a prática de criar prerrogativas especiais, e esse grande temor é uma indicação de que ele ama as leis. Mas com a classe dirigente é bastante diferente: sua condição social está baseada em privilégio e eles buscam tais privilégios em toda parte. Se eles desejam a existência de leis não é para obedecê-las, mas para serem juízes”. (Lettres écrites de Ia montagne, vol.3, p.889)."