A nona cruzada
http://carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed55/bourdoukan.asp
Georges Bourdoukan
Em 1917, o general Allemby, comandante do exército britânico que ocupou a Palestina, proclamou ao atravessar os portões de Jerusalém: "Hoje terminaram as cruzadas". Três anos depois, outro general, o francês Gouraud, assim que suas tropas ocuparam Damasco, correu até o Mausoléu de Saladino e pronunciou uma frase que até hoje fere os ouvidos de árabes, sejam eles cristãos, muçulmanos ou judeus: "Voltamos... Saladino".
Os dois generais afogaram seus rastros com sangue, a exemplo de seus antecessores, os cruzados que, não satisfeitos em matar e estuprar, promoviam festins de canibalismo, como está fartamente documentado.
Confesso que reluto em crer que o terrível atentado contra o TWC tenha sido praticado por muçulmanos. Acredito que ele seja mais uma obra de fundamentalistas americanos ligados a Mc Veigh, o acusado de explodir o prédio de Oklahoma, porque um dos preceitos básicos do islamismo diz que, durante uma luta, as mulheres e as crianças são sagradas e devem ser poupadas. E o que não pode ser transportado não deve ser destruído.
O atentado ao TWT é a negação de tudo isso.
Me assusta também saber que as autoridades americanas estão mais preocupadas em produzir provas contra os muçulmanos do que investigar os reais autores do atentado. Sabe-se que a economia dos Estados Unidos vem minguando há algum tempo e que a indústria bélica, depois da Guerra do Golfo, necessita de novos campos de prova, já que o armamento utilizado para matar a população civil do Iraque (cifras independentes mencionam mais de 1 milhão de mortos) está se tornando obsoleto. Atualmente, a indústria bélica fatura cerca de 1 trilhão de dólares. Além de servir como espada de Dâmocles, serve para manter no poder governos títeres e autoritários, que não medem a brutalidade. São governos de todos os credos e sobrevivem graças à vassalagem. Sua irmã gêmea, a indústria do narcotráfico, fatura outro trilhão, que sustenta Wall Street. Ou alguém acha que se pode guardar 1 trilhão de dólares sob o colchão?
É verdade que, além da Inquisição, das duas guerras mundiais e das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, o Ocidente é responsável pela morte de milhões de pessoas pela fome e pela exclusão. Atualmente, o mundo está polarizado entre os que possuem e os excluídos. E quando os excluídos (que representam 80 por cento da humanidade) resolvem se organizar, como aconteceu durante o Fórum Social Mundial, no Brasil, a imprensa dos Estados Unidos os ignora olimpicamente, dedicando-lhes apenas três linhas, como generosamente fez o New York Times.
Hoje, vivemos sob a ditadura dos veículos de comunicação, cuja representante maior é a empresa norte-americana CNN. É, sem dúvida, a maior empresa de press release do mundo. Ela, mais do que ninguém, é a imagem do Big Brother de Orwell. Se os americanos derrubam um avião civil egípcio, assassinando mais de trezentos passageiros, vale uma nota de duas linhas. Quando aviões americanos destroem um indústria farmacêutica no Sudão, ou atacam a população civil do Iraque durante o mês sagrado do Ramadã, os press releases inundam o mundo com o inexplicável. Se assassinam com bombas a filha de 5 anos de Kadhafi, mencionam-se falhas no ataque "cirúrgico". Quem mais, a não ser um governo arrogante, apoiado por uma imprensa títere, a falar em ataques "cirúrgicos" tentando equiparar assassinos a uma das profissões mais nobres como a dos médicos?
É muito mais do que uma questão de semântica.
É a cultura do dead or alive. Só mesmo quem não conhece a ideologia de um presidente WASP pode estranhar o abandono da conferência sobre o racismo em Durban. Ou o desprezo pelo Protocolo de Kioto ou a transformação do Alaska num enorme poço de petróleo. Isso sem falar no projeto Guerra das Estrelas e na manutenção da OTAN. Se não há mais o Pacto de Varsóvia, para que a OTAN? Só se for para manter os dois terços de excluídos em seus devidos lugares, ou seja, em currais denominados de fronteiras.
Bush e seus assessores entendem que só há uma maneira de recuperar a economia dos Estados Unidos e manter o poder sobre o mundo. Realizar a nona cruzada. Por isso, a paz não lhes interessa, caso contrário não manteriam no poder um terrorista e criminoso como Sharon, o Ariel que lava mais branco.
Quem é bin Laden?
"Nada, eles não sabem nada, nada querem saber.
Vês esses ignorantes, eles dominam o mundo."
Recorro a Omar Khayyam (1050-1122), amigo de Hassan As-Sabáh, inspirador de bin Laden, fundador da Confraria dos Assássin — plural de assás — (Al-Ká’ida), cujo significado é "fundamento". Assássin deu origem à palavra assassino em quase todas as línguas.
As-Sabáh era ismaelita, ramo xiita do islamismo, e vivia em Alamut, na Pérsia (Irã). Seus seguidores eram denominados de mártires, já que não abandonavam o local depois de assassinar o inimigo. Eram temidos porque não temiam a morte. Quando juravam alguém de morte, não descansavam enquanto não cumprissem a tarefa. Antes de executar a vítima na rua, nas mesquitas ou nos palácios, diziam que estavam ali para cumprir uma fátwa. Assassinaram cruzados e mongóis. Os militantes da Al-Ká’ida, de bin Laden, respondem que estão prontos para se tornar mártires.
Outra semelhança é o local escolhido, as montanhas do Afeganistão, já que Alamut, que abrigava os assássin, era também uma montanha. Alamut significa o ninho da águia.
"Vocês serão iguais se puderem ser diferentes sem estar ameaçados de tratamento desigual."
A luz vem do Oriente, já diziam os sábios. Talvez por se lembrarem do governante muçulmano Jalaluddin Muhamad (1542-1605), um filósofo, que transformou o Industão (seus limites iam do Afeganistão até a baía de Bengala, e do Himalaia até o rio Godâvari) na Andaluzia do Oriente. Isso, para citarmos apenas um exemplo. Jalaluddin, que passaria para a posteridade com o nome de Akbar (o grande), além de responsável pela tradução do Mahabharata, abriu as portas de seu império para os pregadores do zoroastrimo, do jainismo e, num exemplo único de tolerância religiosa, pediu a seus escribas que traduzissem o Novo Testamento, na mesma época em que os cristãos se matavam entre si. Os católicos assassinando os protestantes na França, os protestantes assassinando os católicos na Inglaterra, enquanto Giordano Bruno ardia na fogueira em Roma.
Séculos depois, o Império Britânico invadia a região e apresentava o seu cartão de visita na figura de Warren Hastings (1732-1818), que, graças à indústria bélica da época, iniciou um massacre sem paralelo na história. Mais de 120 milhões de vítimas, maior até do que os massacres levados a cabo por espanhóis, portugueses e norte-americanos contra os naturais da terra, os índios. E dos belgas, franceses e holandeses na África. Não satisfeito, Hastings vendeu o soberano Shah Alam II por 25 milhões de rúpias. Mais tarde, informado de que as princesas muçulmanas da região de Auda, mãe e filha, possuíam um tesouro de 75 milhões de rúpias, prendeu, torturou e estuprou-as. Libertou-as mediante o pagamento de 30 milhões de rúpias.
A "terra maravilhosa cujas riquezas e abundância nem a guerra, nem a peste e nem a opressão poderiam destruir", no dizer de alguns historiadores, a terra da concórdia, da paz e da integração de culturas e religiões tão diversas, como hinduístas, zoroastrianos, jainistas, budistas, fetichistas, cristãos católicos, ortodoxos armênios, se converteu, segundo o historiador Shamsudin Elia, no reino do terror, da repressão e da colonização cultural sob os britânicos nos séculos 19 e 20.
Além de várias etnias, o Afeganistão possui vários dialetos e sua resistência aos invasores é histórica, a começar por Alexandre, o Grande. Outros povos tentaram invadir o país mas foram rechaçados.
Em 1842, durante a resistência contra os britânicos, mais de 16.000 invasores foram abatidos nas batalhas de Cabul, em 6 de janeiro, e Gandamak, no dia 13. A história registra que houve apenas um sobrevivente entre os britânicos: o cirurgião Brydon, que chegou cego ao forte de Jalalabad.
O mais recente confronto foi contra o poderoso exército soviético, que depois de quase dez anos de luta acabou abandonando o país.
No Alcorão está escrito que quem salva uma vida salva a humanidade e que Deus não mudará a condição dos homens se eles não mudarem o que está neles.
Não creio que o atentado tenha sido praticado por muçulmanos, mas, ao desencadear a nona cruzada, Bush estará cometendo uma agressão que provocará um efeito dominó mais devastador ainda do que o proposto pelo ex-secretário de Estado Henry Kissinger durante a guerra do Vietnã.
E o mundo jamais será o mesmo.
Georges Bourdoukan é jornalista e escritor,
autor de A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro e de O Peregrino.
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A guerra ao terrorismo está sendo vencida?
http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_113.htm
Os recentes atentados terroristas ocorridos na Chechênia, Arábia Saudita e Marrocos, atribuídos à Al-Qaeda e suas organizações associadas, demonstraram que a guerra contra este tipo de violência está longe de ser vencida pelos EUA. A ocupação de dois países, o Afeganistão e o Iraque, parece não haver contribuído para a erradicação do terrorismo e mesmo estes dois países estão longe de haver sido pacificado. Afinal, qual é o poder real desta rede terrorista? O caminho militar escolhido por Washington, é realmente a melhor forma de derrotar a Al-Qaeda?
A Al-Qaeda al-Sulbah ("a base sólida") foi fundada em março de 1988 pelo Sheik Dr. Abdullah Azzam, como "a ponta de lança do islã", e depois passou a ser liderada por Bin Laden. Constitui o primeiro grupo terrorista multinacional relevante, capaz de fazer com que do pré-moderno Emirado Islâmico do Afeganistão (então governado pelos Talibãs) pudesse partir uma ameaça contra a superpotência pós-moderna que é os Estados Unidos, embora muitos analistas duvidem que ele tivesse capacidade logística para perpetrar sozinho os atentados a Nova Iorque e Washington.
Já antes do 11 de setembro de 2001 a Al-Qaeda iniciou um processo de descentralização de sua infraestrutura, a qual foi intensificada após a ocupação do Afeganistão pelos Estados Unidos em outubro do mesmo ano. Durante três meses a rede Al-Qaeda sofreu deserções e perdeu seus campos de treinamento dentro do país. Mas a descentralização da infraestrutura e o continuado apoio tribal permitiram que ela se restabelecesse na fronteira afegã-paquistanesa. Nesta região também continua ativa a milícia talibã, sob o comando do Mollah Omar. Aliás, é interessante que as forças americanas não conseguiram capturar nenhum importante dirigente talibã ou da Al-Qaeda.
Dezoito mil soldados americanos, aquartelados em Cabul e na base aérea de Bagram mantém o governo do presidente Karzai, que carece de bases políticas e exerce seu poder apenas nos arredores da capital. O novo exército afegão não é uma força confiável e eficaz, e os ocupantes são obrigados a pagar aos chefes tribais para manter a guerra contra os guerrilheiros talibãs. Mas estes chefes entregaram aos norte-americanos apenas prisioneiros sem importância (que se encontram na base americana de Guantanamo, em Cuba), e nenhum líder. Sabe-se que o número dois da Al-Qaeda, Dr. Ayman Al-Zawahiri, joga hoje um papel ativo no comando da organização, permitindo a Bin Laden manter-se oculto. Os camponeses e pastores, obviamente, têm uma idéia da localização das cavernas, mas não fornecem informações.
Enquanto isto, talibã e Al-Qaeda realizaram uma série de atentados no Afeganistão e no Paquistão, inclusive contra os presidentes dos dois países. Ao mesmo tempo, fizeram com que seus aliados separatistas da Caxemira, Marakat-ul Mujahidin, desencadeasse ações na fronteira da Índia. A reação militar indiana levou o Paquistão a deslocar suas tropas da fronteira afegã para a indiana, deixando-a mal guarnecida e, com isto, permitindo ao talibã/Al-Qaeda utiliza-la amplamente como refúgio. Além disso, as ações terroristas atribuídas à Al-Qaeda espalharam-se pelo sudeste asiático e África Oriental (para onde foi transferida parte da infraestrutura), inclusive com um ataque a navios de guerra americanos em Cingapura.
Com relação aos atentados recentes, demonstram uma nova estratégia, direcionada aos países do Oriente Médio. Mas chama a atenção que não houve atentados durante a guerra, que poderiam perturbar os EUA, e somente depois dela, justamente em dois países que se opuseram ao ataque ao Iraque, a Rússia e Arábia Saudita. Em relação a esta última, sabe-se que um dos propósitos de Bin Laden é derrubar a dinastia saudita e, para evitar sua deslegitimação perante a população, ela obrigou os EUA a retirarem suas bases do país.
Por fim, pode-se observar que além da estratégia militar revelar-se pouco eficaz como forma de desbaratar uma rede terrorista que não está sediada em um país específico, a guerra contra o Iraque foi contraproducente. Os EUA, ao desencadearem este conflito por razões geopolíticas que pouco tinham a ver com o combate ao terrorismo, além de contrariar seus aliados e a opinião pública mundial, desarticulou o regime iraquiano que lutava contra o islamismo político (caso do xiitas), humilhou ainda mais o mundo árabe e muçulmano (estimulando o sentimento anti-americano) e colocou suas tropas em posição vulnerável em meio a um país caótico, onde seguramente serão vítimas de atentados por parte de grupos extremistas. Assim, pelos atentados recentes e projeções fáceis de fazer, pode-se acreditar que a guerra ao terrorismo está longe do fim. Se isto, por um lado, legitima a administração Bush, por outro faz com que a América tenha de gastar irracionalmente a energia que necessita para transformar sua estrutura produtiva e as relações com seus aliados, gerando uma ordem mundial estruturalmente estável.
Paulo Fagundes Vizentini
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O terrorismo e as relações internacionais
http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_62.htm
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Terror contra terror: tanques israelenses invadem campo de refugiados de Balata, em Nablus, a procura de membros de grupos terroristas. (1º/março/2002) |
A expressão "terrorismo" passou a integrar a linguagem coditiana em todo o mundo, e passou a ser um conceito largamente empregado no estudo das relações internacionais. Contudo, trata-se de um termo empregado de forma ampla e inadequada, com fortes conotações políticas. Assim, tem sido objeto de manipulação para justificar uma nova agenda internacional. Desta forma, é necessário precisar o que é terrorismo.
Há pelo menos quatro sentidos para a expressão terrorismo. O primeiro se refere ao terrorismo de Estado, ou "terrorismo desde cima". Trata-se de atos generalizados de violência sistemática praticados por governos contra sua sociedade, contra minorias internas ou contra povos dominados, com o objetivo de quebrar a resistência à sua autoridade e impor determinado projeto. A "passivização" da população foi praticada, mais modernamente, pela Alemanha nazista, pelo stalinismo na URSS e pelos regimes militares latino-americanos. Trata-se de algo polêmico, pois o Estado tende normalmente a usar meios repressivos como parte de suas atribuições. Então, há um limite que é ultrapassado, e a repressão se transforma em terror sistemático.
O segundo, mais famoso e consensual, é a execução de atos violentos, especialmente atentados, contra alvos determinados, muitas vezes fora das fronteiras nacionais. Ocorreu largamente nos anos 60 e 70, geralmente ligados a problemas europeus ou do Oriente Médio. Estas ações têm objetivos políticos, para chamar atenção da opinião pública internacional para certos conflitos, ou criar uma situação insustentável para o inimigo. Estes atos geralmente são praticados por organizações clandestinas, mas também por governos, e tiveram lugar na Espanha, Irlanda, Alemanha e Itália, mas especialmente no Oriente Médio, devido ao conflito entre israelenses e palestinos.
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Escombros do WTC, em Nova York. |
Aqui é importante observar que não apenas os grupos clandestinos perpetraram atos terroristas, mas os Estados que os combatiam também. Os atentados palestinos (que incluíam seqüestro de aviões, com reféns) foram respondidos com atentados israelenses eliminando terroristas, mas também lideranças palestinas. Muitos críticos acusam Israel de praticar uma "política terrorista" nos territórios ocupados, mas isto se referiria ao primeiro tipo. Também é comum que se fantasie sobre a existência de uma "internacional terrorista" vinculando todos os grupos. Mas isto está mais no campo dos romances de espionagem do que na realidade, devido à multiplicidade de interesses e rivalidades existentes entre estes grupos que, muitas vezes, estão infiltrados pelos serviços de inteligência de Estados poderosos.
O terceiro tipo de terrorismo é o que produz o maior número de vítimas e destruições: o terrorismo comunal (ou comunitário) das guerras civis ou "terrorismo desde baixo". Foi o caso da África central, dos conflitos na ex-URSS e, especialmente, na ex-Iugoslávia. Trata-se de conflitos desordenados, em que a população civil ou suas milícias intervêm diretamente contra outras comunidades, geralmente minorias étnicas ou religiosas. Trata-se de um espécie de "terror coletivo", visando a eliminação ou expulsão destas. Por isto, o julgamento de um homem como Milosevic é tão complicado. De certa forma, este tipo de terrorismo está crescendo no Afeganistão, Paquistão e Índia.
Finalmente, o quarto e último tipo não representa um terrorismo real, mas uma espécie de percepção pânica ou "ansiedade global", como definiu o politólogo britânico Fred Halliday. Trata-se de uma gigantesca orquestração, manipulando o sentimento de insegurança das população, numa época de crise e incertezas. Seu objetivo é o de criar um consentimento a medidas repressivas que, basicamente, implicam em perseguição de opositores, simplesmente rotulados de terroristas. Justifica a supressão de direitos civis e o desencadeamento de guerras. Atualmente são estes dois últimos que constituem um grande perigo, o terror coletivo empregado nas guerras civis e o terror virtual, utilizado para provocar um estado de tensão global que justifique certos propósitos políticos por parte de governos. Por isto, é necessário refletir sobre o tema de um forma de uma forma científica, sem a histeria que caracteriza certos círculos.
Holanda, 03 / 2002
Paulo Fagundes Vizentini
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http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_42.htm
O múltiplo atentado terrorista sofrido pelos EUA no dia 11 de setembro representa um divisor de águas na Ordem Mundial. Pela primeira vez, o território americano foi atingido, justamente em seus maiores símbolos, econômico-financeiro e militar. Tendo participado de todas as grandes guerras do século XX, jamais seu território metropolitano fora alcançado. Os cidadãos daquele país estavam acostumados a ver semelhantes imagens na ficação cinematográfica (desde A guerra dos mundos, de Orson Welles, nas vésperas da II Guerra Mundial) ou em outros países, através dos noticiários da CNN, sem se importar muito. Hoje, são eles as vítimas.
O atentado golpeou não apenas a maior potência do planeta, mas o centro econômico e simbólico do Ocidente capitalista. Nova York é familiar a todos, pelo menos através do cinema, como símbolo do American way of life, mas, igualmente, trata-se de uma cidade internacional, centro do poder financeiro mundial e das Nações Unidas. Washington, particularmente o Pentágono, constitui o núcleo e o ícone do poder político-militar da maior potência de todos os tempos. Quando algo desta magnitude e natureza ocorre, é preciso, antes de buscar as respostas, fazer as perguntas adequadas: como algo assim pode ocorrer, a quem interessaria (considerando a reação que virá) e, especialmente, quais as conseqüências e significados?
O fim da guerra fria, ao contrário de muitas previsões apressadas, criou um mundo de instabilidade, pois privou Washington de um inimigo definido, que disputava, mas negociava os conflitos localizados. Era um cenário com forte previsibilidade. Aliás, a América estruturou-se como potência mundial em contraposição ao outro. E este é, hoje, um inimigo sem rosto e sem endereço.
Muitos conflitos regionais perderam a importância estratégica, e foram abandonados à própria sorte, evoluindo de forma anárquica (como na África e Ásia central), gerando movimentos políticos aparentemente irracionais. Antigos aliados, entre os quais os fundamentalistas, que a CIA armou contra os soviéticos, se converteram em rebeldes sem causa, e acabaram se voltando contra os EUA. O cenário internacional, literalmente "privatizado", é hoje um excelente campo de ação para grupos de todo tipo, muita vezes confusos politicamente, mal orientados ou manipulados.
Certamente, isto teria conseqüências político-militares expressas de forma irracional na medida em que desapareceu a anterior estrutura internacional que permitia um equilíbrio entre potências, bem como uma ação política de perfil "moderno". Daí o emprego de métodos terroristas numa escala, agora, sem precedentes. Ninguém, em nenhuma parte do mundo, está mais a salvo. E nada indica que este novo tipo de conflito "pós-moderno" não venha a se intensificar no futuro, pois vem crescendo há anos.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca liderou a globalização neoliberal (que produziu muitos perdedores e poucos ganhadores), e foi tentada a exercer uma hegemonia unilateral que, na gestão Bush, chegou a desconsiderar seus próprios aliados da Otan. A falta de adversários à altura levou os EUA a uma certa perda de parâmetros, sobrevalorizando o emprego da força sem a necessária mediação político-diplomática. Desta forma, atraiu contra si um ressentimento generalizado e difuso, mesmo quando revestido de certa admiração.
Por outro lado, sem que a opinião pública (e mesmo a maioria dos analistas) se desse conta, ações mal calculadas produziram novos inimigos e expuseram certas debilidades americanas. A guerra de novo tipo contra o Iraque foi um sucesso, mas somente até certo ponto. Gerou-se um ódio anti-americano generalizado nos países muçulmanos, enquanto Saddam Hussein sobrevivia, simbolizando o valor da resistência. A intervenção "humanitária" na Somália culminou com uma derrota militar e uma retirada humilhante. As retaliações ao Sudão e ao Afeganistão, após o atentado às embaixadas americanas na África oriental, não detiveram a ação terrorista, revelando-se contraproducentes.
Na seqüência, a guerra do Kosovo (que visava legitimar a expansão da Otan ao leste europeu) e, depois, o chamado escudo antimísseis, acabaram produzindo uma mudança radical na diplomacia da Rússia e uma aliança estratégica desta com a China. A própria resistência da Iugoslávia de Milosevic e os resultados ambíguos da guerra, representaram conseqüências políticas negativas, momentaneamente encobertas pelo sucesso militar. A aliança americana com oposições destrutivas e de moralidade duvidosa, como a dos albaneses, revelaram-se igualmente uma faca de dois gumes, como a crise atual na Macedônia tem demonstrado.
O fim do século XX e a passagem ao terceiro milênio foram, em termos simbólicos e práticos, bastante adversos aos Estados Unidos. A economia americana desaqueceu e aponta para a recessão, com conseqüências mundiais. Paralelamente, a eleição presidencial americana acabou produzindo uma desmoralização sem precedentes, maculando a lisura da democracia do país, até então imposta ao mundo como o modelo. O candidato republicano, George W. Bush, ficou em segundo nos votos populares, mas venceu no colégio eleitoral, numa recontagem obscura e confusa ocorrida na Flórida (que era governada por seu irmão).
Assim, após dois mandatos democratas, assume um presidente mal preparado e mal assessorado, que interrompe o trabalho de estruturação de uma ordem mundial centrada na priorização de grandes organizações multilaterais (monitoradas pelos Estados Unidos), que Clinton vinha realizando. A tentação do exercício de um poder unilateral, por sua vez, tem gerado tensões internacionais em todos os níveis, a maioria delas absolutamente desnecessárias, mesmo sob a ótica dos próprios interesses americanos.
Em apenas oito meses de governo, Bush colocou quase todo o mundo em oposição a suas políticas, inclusive as organizações ambientalistas, ao abandonar o Protocolo de Kyoto sobre a emissão de gases e o aquecimento terrestre. Ou seja, desconsiderou um dos problemas mais graves que afeta o planeta e, portanto, que ameaça os próprios EUA. Recentemente, o país não foi mais reeleito para a Comissão de Direitos Humanos da ONU, um sinal bastante forte que a administração republicana simplesmente ignorou.
No Oriente Médio, há um levante palestino que já dura um ano, com uma espiral de violência inédita e as negociações de paz bloqueadas entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina. Os "falcões" falam mais alto entre os palestinos, e o primeiro-ministro Sharon é um inimigo declarado do processo de paz. Repressões e atentados se sucedem, num banho de sangue sem fim. E os EUA, que são aliados de Israel e das monarquias petrolíferas árabes, simplesmente não têm uma política positiva para a região, colocando-se numa posição de omissão que desagrada aos dois lados.
Enquanto abandonam qualquer forma de mediação efetiva na região, no plano mundial aparecem em defesa de Israel, como na Conferência da ONU sobre o Racismo, realizada recentemente em Durban, na África do Sul. Mas há também o regime afegão dos Talibãs, que os EUA, Paquistão e Arábia Saudita apoiaram, e que agora se volta contra os EUA. O líder da oposição anti-Talibã sofreu um atentado há poucos dias, enquanto o regime de Kabul, paralelamente, propunha a troca de prisioneiros de ONG´s ocidentais por um terrorista preso nos EUA.
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Osama Bin Laden |
Osama Bin Laden, um multimilionário saudita e fundamentalista que vive no Afeganistão, e que estaria entre os mentores de anterior ataque ao World Trade Center e a embaixadas americanas na África (além de ter ameaçado constantemente os EUA), passou a ser considerado o principal suspeito. Este homem, que já trabalhou para a CIA durante a guerra contra os soviéticos, possui o know how e recursos necessários para tal ação. Já os grupos palestinos, dificilmente teriam a logística suficiente para realizar um atentado como o de Nova York e Washington, nem ganhariam com isto, pois o mundo se voltaria contra eles e sua causa sofreria uma derrota.
Todo este quadro foi construindo no imaginário americano um "choque de civilizações", expresso no livro homônimo de Samuel Huntington. A conjunção da civilização confuciana com a islâmica seria, segundo sua visão, a maior ameaça ao Ocidente, cuja instituição unificadora é representada pela Otan, como afirma. A recente produção cinematográfica americana contribui para isto, com esteriótipos como o dos árabes como terroristas, os latino-americanos como traficantes internacionais e os asiáticos como os novos ditadores. Acrescente-se as ações diplomático-militares dos EUA, antes decritas, e está produzido o choque de civilizações.
Quando um terrorista norte-americano louro e de olhos azuis realizou o atentado de Oklahoma, imediatamente cidadãos de origem árabe passaram a ser vistos com desconfiança e mesmo perseguidos, até que as investigações chegaram à extrema-direita americana e ao recém-executado Mac Veigh. Ele, aliás, preferiu morrer a entregar seus companheiros (portanto um ato "fanático"), que poderiam o estar vingando agora. Assim, o "fundamentalismo" também está incrustado na sociedade americana, com as milícias e seitas fanáticas que resistem à bala ao FBI e promovem suicídios coletivos.
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Bombeiros e equipes de resgate aproximam-se do que restou das torres do WTC. (11/setembro/2001) |
A hipótese de que o ataque seja obra da extrema-direita norte-americana é bastante plausível. O tipo de atentado assemelha-se mais à ação destes do que a de grupos islâmicos. Obviamente, estes bem que desejariam perpetrar um atentado deste tipo, mas talvez falte-lhes a coordenação suficiente. Estaríamos, no caso da extrema-direita, entrando numa dimensão ainda mais irracional, que pode ser avaliada pelo absurdo do atentado de Oklahoma. Duros por fora, os EUA seriam frágeis por dentro, enfrentando um inimigo que tem conexões em vários escalões da vida política, civil e militar americana, muito mais eficazes do que a dos extremistas islâmicos, pois qualquer árabe seria suspeito e vigiado.
O estabelecimento de uma espécie de "síndrome do declínio do Império Romano" se instalou nos EUA, e é o que se depreende do livro confuso e racista de Huntington. A estagnação demográfica do Primeiro Mundo acarreta migrações do Sul para o Norte, depois de cinco séculos de expansão européia do Norte para o Sul. Os imigrantes, necessários à economia dos países industrializados, causam desconfiança entre os cidadãos destes países, gerando dificuldades no relacionamento cultural e ondas de racismo e xenofobia. Na sociedade americana, é cada vez menos numeroso o WASP (white, anglo-saxon, protestant), à medida em que as outras etnias avançam numericamente.
No plano imediato, os Estados Unidos encontram-se na contingência de retaliar militarmente, para recobrar a auto-estima ferida de seus cidadãos, embora não saibam exatamente contra quem. Serão tentados a aproveitar a situação para acertar as contas com alguns inimigos, deixando para depois o ônus da prova. Contudo, os líderes das demais potências pediram moderação, e provavelmente não avalizarão qualquer medida intempestiva. De qualquer maneira, não haverá uma Terceira Guerra Mundial, muito menos nuclear.
Não há contra quem travá-la, neste momento. Mesmo o Afeganistão se encontra completamente destruído por quase vinte e cinco anos de guerra, e não há alvos dignos para os mísseis americanos. Os pequenos acampamentos de terroristas podem se mudar do dia para a noite. Ocupar militarmente o país, depois do preço pago pelos soviéticos ou da lembrança do Vietnã, é algo impensável. Assim, a retaliação militar pode representar um soco no vazio. O inimigo está diluído, e não pode ser esmagado por meios militares convencionais. O poderio americano estaria, em certo sentido, impotente.
Por outro lado, os EUA (e particularmente os republicanos) deverão tirar dos fatos as devidas lições, o que não é garantido. O atentado provocou indignação ao redor do mundo, mas também muito júbilo, alentando outras forças anti-americanas. O sentimento de humilhação frente à arrogância de grande potência foi substituído pela percepção de que os Estados Unidos não são mais inatingíveis e, portanto, invencíveis. Daí ser necessário repensar o perfil político e econômico da ordem mundial, o que pode ser positivo.
Contudo, no plano imediato, a crise será explorada como forma de militarizar ainda mais as relações internacionais, bem como a vida civil americana. A histeria, de contornos paranóicos, racistas e xenófobos, certamente será uma conseqüência. As vítimas serão principalmente os árabes, os asiáticos e, de certa forma, os hispânicos. Por isto, é necessário condenar o terrorismo como prática (inclusive o de Estado) e articular um movimento em defesa da paz.
Além disso, a situação criada com a perturbação dos mercados financeiros, que já iam mal, permitirá a adoção legitimada de medidas unilaterais, como forma de manipular a economia mundial ou adotar medidas impopulares. A crise econômica, já latente, será atribuída ao atentado. Isto, apesar do fato de que o poderio material americano não foi minimamente afetado, pois foram escritórios administrativos, mesmo no Pentágono, os alvos atingidos. Tudo foi de um simbolismo extremo.
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A queda do WTC: um mito derrubado |
Este fato impactante, que a racionalidade lógica tarda a assimilar, evidencia a fragilidade do mundo globalizado pós-guerra fria, e gerou certa percepção de pânico e insegurança em grande parte das elites dirigentes dos diversos países. Trata-se de um acontecimento da mesma magnitude da queda do Muro de Berlim, quase doze anos atrás. Com o World Trade Center, um mito foi derrubado. Possivelmente, o mundo ingresse numa fase em que as relações internacionais tradicionais serão aparentemente eclipsadas por uma guerra civil esporádica de dimensões planetárias.
09 / 2001 - Paulo Fagundes Vizentini é Professor de Relações Internacionais e Diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS. Pesquisador Associado do NUPRI/USP.
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Terrorismo

"Uma doença social percorre a Terra, contaminando as nações com a pestilência da morte. O terror colhe sua safra sinistra em todas as partes do planeta."
Este o início de um dos muitos editoriais de jornais publicados nos últimos tempos sobre o terrorismo no mundo. As nações assistem perplexas ao aumento quase inacreditável desse tipo de violência que com carros-bombas, cartas-bombas e até homens-bombas, dilacera cidadãos e abala governos, em nome de causas religiosas, políticas, econômicas, sociais, étnicas…
O jornalista Luis Carlos Lisboa resumiu desta forma (muito apropriadamente) a sua visão do fenômeno: "Entre os horrores de um final de século apocalíptico, que incluem a corrupção moral generalizada e a indiferença diante da pobreza absoluta, surge da sombra o terrorismo para mostrar ao mundo o lado mais cruel do homem."
O terrorismo é um fenômeno típico do século XX. Crimes e guerras sempre existiram na história conhecida da humanidade, mas os atos terroristas, que em violência podem ser situados entre esses dois, é uma característica do nosso século.
É verdade que em séculos passados houve atentados contra autoridades e órgãos públicos, mas estes quase sempre resultaram da ação deliberada de uma pessoa ou no máximo de um grupo formando um complô, montado exclusivamente com aquele objetivo e que após consumado o atentado se dissolvia.
O terrorismo é diferente. Trata-se de grupos organizados que agem sob uma bandeira qualquer, sempre com o objetivo de destruir. Todos os membros desses grupos estão absolutamente convencidos da nobreza de suas causas e da justeza de suas ações. Na correta análise do jornalista francês Gilles Lapouge, "esses assassinos cegos consideram-se santos, heróis, pessoas sacrificadas, que hoje provocam a desgraça com o objetivo de preparar a felicidade do amanhã."
O termo "terrorismo" apareceu pela primeira vez em 1798, no Suplemento do Dicionário da Academia Francesa. Referia-se ao regime de terror em que a França mergulhou entre setembro de 1793 e julho de 1794. Alguns historiadores denominam também de terrorismo a onda anarquista que grassou na Europa em fins do século XIX.
Os primeiros atos terroristas com as características que hoje conhecemos apareceram em 1912, quando um grupo de macedônios, hostis à Turquia, começou a colocar bombas nos trens internacionais. Por essa época, no início do século, os dicionários ainda traziam uma singela explicação para o termo terrorista: "Pessoa que espalha boatos assustadores; que prediz catástrofes ou acontecimentos funestos; pessimista."
Como veremos mais à frente, daquela época até os nossos dias, o número de organizações terroristas e suas ações aumentaram em progressão geométrica, a tal ponto, que hoje é raro passar uma semana ou mesmo alguns dias sem o registro de uma ação terrorista de porte em alguma parte do mundo. Em 1970 foram registrados 300 atentados terroristas no mundo, em 1975 foram 349 e em 1980 foram 500 atentados.
O comum hoje, e que já está se tornando normal, é a ocorrência de várias ações terroristas simultâneas. Um outro extrato do editorial jornalístico mencionado no início deste tópico dá uma imagem clara da situação em que vive o mundo atualmente: "Em uma só rodada, um suicida explode um ônibus em Tel-Aviv; um trem vai pelos ares em Paris; um carro-bomba mata perto de Argel; bactérias de antraz foram espalhados pelas ruas de Tóquio; no Peru uma mina detona sob um caminhão; na Índia é uma motocicleta carregada de explosivos; na Colômbia um ataque a dinamite. (…) O contágio é universal. Diferenças entre chechenos e russos são resolvidas num país báltico. A virtual guerra civil argelina traslada-se para Paris. Um desequilibrado de Michigan mata em Oklahoma para se vingar de algo ocorrido no Texas. O ódio anti-semita explode em Buenos Aires. O vingativo fundamentalismo egípcio faz ninho onde Paraguai, Argentina e Brasil confluem."
Esta sinopse pode ser complementada com o extrato do editorial a seguir, publicado num periódico logo após um novo ataque suicida do grupo extremista Hamas ("Fervor") em Israel: "Da Argentina à Espanha, dos Estados Unidos ao Japão, nenhum país pode considerar-se a salvo desse inimigo [o terrorismo] que se move nas sombras, escolhe suas vítimas ao acaso e já está, na avaliação de especialistas, na iminência de ter acesso aos recursos da energia nuclear, com seu poder apocalíptico de destruição."
Que o terrorismo, hoje, já atingiu o mundo todo, demonstram as notícias sobre a explosão de cartas-bomba e carros-bomba em países tão diferentes entre si como: Suíça e Albânia, Inglaterra e Paquistão, Áustria e Etiópia, Espanha e Sri Lanka.
O chamado "terrorismo de estado" é algo à parte. Pois nesse caso a violência dos governantes em relação à população se estende geralmente durante vários anos, às vezes por décadas, e as vítimas são contadas em dezenas de milhões. Seria mais apropriado denominar esses acontecimentos de genocídios ou guerras civis abertas, invariavelmente desencadeadas "em nome do estado", "da segurança nacional", "contra anti-revolucionários", "contra subversivos", etc. Em todos os casos a motivação é política (veja alguns exemplos no tópico Política).
Mas voltemos à história do surgimento do terrorismo, que vai crescendo em nosso século no mesmo ritmo em que os anos se vão transformando em décadas.
Em seqüência às ações dos terroristas macedônios de 1912, o mundo conhecia a primeira das últimas três guerras mundiais que assolariam a humanidade antes de se ter consumado o Juízo1. Após a Primeira Guerra Mundial, algumas nações começaram a ajudar grupos revolucionários de outros países. A Itália e a Hungria, por exemplo, apoiaram nessa época os revolucionários croatas. Em 1920, um dos expoentes da revolução russa, Leon Trotski, preconizava que o terror era a "continuação natural da insurreição armada", e que a intimidação era o "mais poderoso meio de ação política"2…
Depois da Segunda Guerra Mundial, particularmente a partir dos anos 60, o financiamento estrangeiro ao terrorismo tornou-se regra. União Soviética, Argélia e Líbia, entre outros, fomentaram o terrorismo no mundo, o qual, a partir dessa época fazia o "trabalho sujo" da política internacional.
A década de 70 foi a época do apogeu das grandes organizações terroristas de cunho eminentemente político, como as "Brigadas Vermelhas" na Itália, a "Ação Direta" na França, o "Baader Meinhof" na Alemanha. Seqüestros e grandes atentados à bomba foram a marca registrada desses grupos.
Nas décadas de 80 e 90 o terrorismo se disseminou em inúmeras organizações espalhadas pelo mundo, todas elas tendo como objetivo último a destruição. No próprio Oriente Médio, que sempre esteve mergulhado em violência e sangue desde o final da Segunda Guerra, os atos terroristas eram acontecimentos esporádicos durante as décadas de 50 e 60; porém, a partir da década de 80 o terrorismo se espalhou na região como um câncer incontrolável, atingindo tanto o bloco muçulmano como o israelita.
Há hoje várias dezenas, talvez centenas de grupos terroristas atuando em todos os cantos do planeta. Algumas dessas organizações ostentam nomes absurdos, incríveis mesmo, quando comparados às suas formas de ação e seus objetivos: Grupo Antiterrorista de Libertação (Espanha – anos 80), Partidários do Direito e da Liberdade (França – anos 80), Grupo da Justiça Internacional (Egito – 1995), Hezbollah — Partido de Deus (Israel – anos 80 e 90). Há também nomes esdrúxulos, como: Tigres da Libertação Tâmil, Células do Mártir Engenheiro, Frente Tigre de Libertação da Bodolândia.
Nos anos 90 a tônica dos atentados terroristas são os carros-bombas e os "mártires" suicidas, que com explosivos presos a seus corpos procuram causar o maior número possível de mortes e destruição, geralmente em locais com grande concentração de pessoas, como a saída de uma escola, um ônibus lotado, etc. Na França, chegou-se ao ponto de proibir os pais de acompanhar seus filhos até dentro das escolas, pois terroristas poderiam infiltrar-se entre eles e provocar uma tragédia. Em agosto de 95, a polícia francesa conseguiu desativar uma bomba que se verificou posteriormente estar cheias de parafusos e pregos, o que demonstrava a intenção de causar o maior número possível de vítimas fatais ou de feridos.
A Europa, aliás, é o campo preferido da atuação do terrorismo mundial. De acordo com o cômputo do Jane's Word Insurgency Terrorism, em 1996 houve 121 ações terroristas no continente europeu.
Mas as novidades no campo do terror não se restringem apenas à explosão de "idealistas kamikazes". Já há, pois, quem alerte contra possíveis atentados com armas nucleares e sabotagens cibernéticas. Em relação à primeira possibilidade, só podemos acrescentar que é cada vez maior o número de apreensões em vários países de material radioativo roubado (veja os últimos casos registrados no tópico Conflitos Bélicos). O general russo Alexander Lebed alertou o mundo que seu país produziu armas atômicas portáteis durante a guerra fria, chamadas de "maletas nucleares"; ele não tem certeza se todas elas estão sob controle do governo da Rússia, e manifestou preocupação ante a possibilidade de os cientistas que as construíram venderem seus conhecimentos para grupos terroristas.
Quanto à segunda possibilidade, só há conjecturas por enquanto. Imagina-se, por exemplo, que podem ser criadas armas de rádio-freqüência de alta energia, capazes de inutilizar um alvo eletrônico qualquer, como cabines de aviões ou controles de tanques e mísseis. "Bombas lógicas" poderiam paralisar os mercados financeiros e destruir os registros de transações... Ficção? Utopia? Todos nós esperamos que sim. Contudo, já vimos até aqui exemplos bastante concretos do que a índole do ser humano é capaz de realizar...
Sempre que uma tragédia humana atinge proporções inesperadas, os governos dos países se reúnem para tratar do assunto e tomar deliberações. Com o terrorismo não é diferente. Em março de 1996 teve lugar no Egito a "Conferência Internacional dos Pacificadores", reunindo 27 países. As resoluções da conferência, resumindo, foram: "repúdio ao terrorismo", "apoio às iniciativas de paz", "criação de uma comissão para preparar recomendações sobre a melhor maneira de por em prática as decisões tomadas". Um resultado tão pífio que mostra claramente, mais uma vez, a incapacidade de a humanidade se defender com êxito dos seus maus efeitos retroativos.
E acompanhando durante certo tempo as notícias sobre esse efeito retroativo tão sanguinário, pude constatar que a repercussão de um atentado depende mais do local onde ele é praticado do que dos danos que causa. A desativação de três bombas colocadas por terroristas argelinos em Paris teve muito mais espaço na mídia do que a notícia da explosão de um caminhão-bomba no Sri Lanka, que matou cerca de 500 pessoas segundo informações do governo local. A explosão de um carro-bomba na Croácia abalada pela guerra sequer foi noticiada pelos jornais.
Isso mostra duas coisas. Primeiro, que a violência terrorista praticada em regiões menos conhecidas do planeta é considerada como algo absolutamente corriqueiro, natural, típico dessas regiões ou de nossa época, não causando mais a menor comoção. Em algumas décadas passadas um desses atentados teria sido noticiado nas primeiras páginas dos jornais, seguidos de comentários indignados e cheios de perplexidade; hoje, quando muito, aparece perdido num canto de página, juntamente com outras notícias internacionais "comuns", como furacões e terremotos. Em segundo lugar, o desejo das pessoas de não querer ver ou de não querer saber sobre o aumento das tragédias em nosso tempo, reflete-se, muito naturalmente, na forma e disposição das notícias veiculadas pela imprensa. Em razão disso, essas notícias também não mostram a realidade dos fatos. Por isso, pode-se afirmar com segurança que, apesar de todo o horror mostrado pelas notícias sobre atentados terroristas, a situação real no mundo é muito pior.
A título de ilustração, indica-se abaixo os dados coletados de notícias efetivamente veiculadas pelos jornais durante um período de oito meses, abrangendo as ações terroristas de grande porte no mundo3:
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Atentado a gás: |
1 |
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Atentados com cartas-bombas e pacotes-bombas: |
3 |
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Explosões detonadas por terroristas suicidas: |
6 |
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Atentados praticados com armas de fogo: |
10 |
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Explosões de bombas programadas: |
18 |
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Atentados com carros-bombas: |
24 |
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— |
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TOTAL : |
62 |
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Países atingidos: |
254 |
A maior parte dos atentados terroristas dos últimos anos foram praticados com carros-bombas ou caminhões-bombas, detonados por controle remoto, e também através de motoristas suicidas, como foi o atentado contra a força multinacional estacionada em Beirute em 1983 — o pior até hoje registrado (março de 1997) — onde morreram 241 americanos e 58 franceses. As embaixadas americanas nessa região do mundo são hoje verdadeiras fortalezas, com portas de aço de 30 cm de espessura e vidros à prova de bala.
Os atentados suicidas praticados com carros, e também aqueles onde o terrorista explode bombas presas em seu próprio corpo são, em sua quase totalidade, praticados por fanáticos religiosos. Esses extremistas acreditam estar participando de uma "guerra santa", e assim nada mais fazem senão executar uma determinação divina quando exterminam os infiéis, isto é, todos os que não professam a mesma crença. Um dirigente religioso egípcio chegou a afirmar: "Aqueles que não se engajam na violência em nome [da doutrina] não são [fiéis] e não representam [a doutrina], são criminosos que devem ser punidos."
Os extremistas muçulmanos que praticam atentados suicidas acreditam que suas ações lhes garantem o direito de ingressar no Paraíso, onde terão dezenas de virgens à sua disposição para satisfazê-los sexualmente. Também lhes é assegurado que suas famílias farão jus a vagas reservadas no Paraíso… Talvez seja por isso que a família de um terrorista suicida colocou na entrada da casa, para recepcionar as pessoas que foram oferecer condolências, pequenos cartazes com os dizeres: "Não aceitamos pêsames, e sim congratulações."
Na Argélia, o Grupo Islâmico Armado (GIA) — ala radical da insurreição islâmica especializada em terrorismo urbano — invoca a prática do Mut'a (casamento temporário), para abordar as famílias e exigir suas filhas. Às vezes, quando não as consegue, o grupo corta a garganta das moças em represália. Em seis anos, as ações terroristas do GIA deixaram o país mergulhado na guerra civil, com mais de 65 mil mortes. Os terroristas chegaram ao requinte de criar uma máquina de degolar: uma espécie de guilhotina rudimentar, transportada em caminhão e utilizada inclusive em mulheres e crianças. Em alguns casos, as mulheres têm o couro cabeludo arrancado e o ventre aberto a facadas antes de serem degoladas… Os ativistas do GIA degolam suas vítimas para que elas não possam gritar o nome de Alá, pois assim acreditam que elas ficarão impedidas de ingressar no Paraíso.
Todas as formas de ódio alimentadas continuamente pelos povos da região ajudam a manter o terrorismo sempre atuante. No mundo palestino, as letras de rock do grupo Hamas, incentivando à guerra santa e aos ataques suicidas contra os israelenses, vendem mais do que qualquer outro gênero nas lojas de disco. No Egito, mulheres muçulmanas que se convertem ao cristianismo são violentadas e os homens assassinados. O assassino do presidente egípcio Anuar Sadat foi homenageado com um selo postal e nome de rua no Irã.
Mas a insanidade religiosa, é bom esclarecer, utilizada como justificativa para atos terroristas, não é exclusividade de extremistas muçulmanos. Um rabino ultra-ortodoxo, assassinado em 1990 em Nova York, costumava ensinar a seus alunos que "a violência de judeus contra não judeus é sagrada…"
Em fevereiro de 1994, o extremista judeu Baruch Goldstein entrou na mesquita da cidade de Hebron, onde uma multidão de fiéis árabes estava reunida para a oração da sexta-feira, e disparou diversas rajadas de fuzil, matando 29 pessoas e deixando 125 feridas, antes de ser morto pelos sobreviventes. No túmulo desse terrorista sanguinário está escrito: "O santo Dr. Baruch Goldstein, morto quando santificava o nome de Deus." Sobre esse túmulo, um grupo de judeus radicais construiu uma espécie de templo.
Logo após o assassinato do primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, por um terrorista judeu em novembro de 1995, apareceram nos noticiários televisivos cenas inconcebíveis: extremistas judeus de um lado e extremistas árabes de outro festejando com o mesmo ardor aquele assassinato. Ambos os grupos estavam satisfeitos por poderem continuar com a sua justa "guerra santa". O jornalista Issa Goraieb comentou desta forma o espetáculo dantesco: "Os ‘ultras’ judeus e os ‘ultras’ muçulmanos celebrando com a mesma alegria o trágico acontecimento. (…) Os loucos de Jeová revelando-se aliados objetivos dos loucos de Alá, já que uns e outros se opõem violentamente a uma paz de compromisso e desejam perpetuar uma guerra que chamam de ‘santa’, convencidos de que ela é comandada de fato pelo Criador."
Mais alguns exemplos do grau de demência que os grupos terroristas lograram atingir: Depois um atentado suicida duplo num mercado de Jerusalém, a organização extremista Hamas expediu o seguinte comunicado: "Em nome e com a benção de Deus, a Unidade de Mártires das Brigadas do Qassam para libertação de prisioneiros declara sua responsabilidade pela operação de martírio em Jerusalém." Numa outra ocasião, depois que seu principal fabricante de bombas foi morto, a mesma organização divulgou um vídeo em que um de seus líderes afirmava: "Pelo mérito de nossa guerra santa e dos combatentes sagrados em nossas fileiras, levaremos tristeza e horror ao coração e à casa de todo sionista." Numa entrevista concedida a um jornal francês, um dos líderes do GIA afirmou que era irrelevante o fato de mulheres e crianças estarem sendo assassinadas pelo grupo na Argélia, pois segundo ele "Alá reconhece imediatamente os inocentes". Num outro comunicado, o GIA declarou: "Nós somos o grupo que mata, trucida, queima e pilha com a permissão de Deus."
Constata-se de forma muito nítida que na década de 90 o terrorismo político foi sobrepujado pelo religioso. A diferença agora é que os crimes são cometidos sob a invocação do Criador, assim como já ocorrera na época da Inquisição. Esta circunstância bizarra não escapa ao questionamento de muitos, que não encontram resposta para uma tal inversão de conceitos e valores. Em novembro de 1995, o jornalista francês Gilles Lapouge perguntava perplexo: "Por qual aberração, sob o peso de qual fatalidade, as religiões do amor se transformam nesse formidável instrumento de assassinato, de negação do outro, de desprezo e ódio?"
A resposta para isso, assim como para todos os outros flagelos que castigam a humanidade nesse final de século é, como já foi dito, o efeito das irradiações julgadoras do Juízo Final que, ao forçar a exteriorização de tudo, de todo o mal, retribui a cada nação, a cada povo e a cada ser humano em particular, aquilo que foi gerado outrora. Quem em outras vidas provocou sofrimento, morte e destruição, não pode esperar nada de diferente agora, na época do acerto final de contas.
Não é possível descrever todo o horror que o terrorismo já proporcionou ao mundo neste nosso século. Uma breve sinopse de alguns fatos mais relevantes, porém, servem para dar uma idéia do ponto a que já chegou essa materialização do ódio humano:
"Estamos provavelmente à beira de um novo período da História. O maior trabalho dos governos ocidentais, nos próximos anos, deverá ser a luta sem piedade contra todas as formas imagináveis de terrorismo. Se perderem essa luta, nossa civilização corre o risco de sofrer ferimentos irreparáveis."
Esse desabafo de Gilles Lapouge, quase sem esperança, é compreensível em vista da situação caótica provocada pelo terrorismo no mundo. A solução, contudo, não está nas mãos dos homens. Nenhuma autoridade constituída tem o poder de eliminar essa doença do século XX, pois ela faz parte do processo de fermentação e depuração por que atravessa a humanidade. Como produto das trevas, o terrorismo só pode atingir as próprias trevas. Essas, porém, não poderão subsistir ao Juízo Final, apenas continuarão agindo ainda durante certo tempo, até se destruírem mutuamente de forma total. Mas, nessa ação de auto-aniquilamento, as trevas se comportam na verdade como instrumentos da Luz. Elas são obrigadas a servir a Luz durante o Juízo Final, ao terem de colaborar de forma ativa, compulsoriamente, para a limpeza na Criação.
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Notas de Texto
1. A eclosão da Terceira Guerra Mundial é
inevitável, por ser um retorno cármico coletivo da humanidade. Ver, a respeito,
O Livro do Juízo Final, de Roselis von Sass.
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2. Trotski foi assassinado no México em 1940, a mando de Stalin.
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3. Não há menção sobre mortos e feridos por serem muito díspares as informações
a respeito. O fundamental é considerar que cada ato terrorista tem o objetivo de
causar o maior número possível de danos e vítimas.
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4. Os 25 países atingidos naquele período (alguns por várias vezes) foram:
Japão, Espanha, Estados Unidos, Peru, Iêmen, Colômbia, Portugal, Israel, França,
Argélia, Sri Lanka, Canadá, Finlândia, Geórgia, Índia, Macedônia, Áustria,
Arábia Saudita, Croácia, Azerbaijão, Iraque, Angola, Paquistão, Afeganistão e
Egito.
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5. O terrorista solitário, apelidado de "Unabomber", acabou sendo identificado e
preso em 1996.
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6. É realmente um escárnio das trevas que a palavra Verdade seja colocada no
nome de uma agremiação como esta.
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